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  • Daiana Santos

19 milhões de miseráveis: a epidemia de fome no Brasil

Updated: Jul 12

Por: Gabriel Melo, bacharel em Economia pela UFRGS.


Edição: Júlia Soares



A fome vem aumentando no Brasil de maneira desenfreada. Neste sentido, estamos diante de um retrocesso humanitário, visto que havíamos obtido grande redução dela entre 2004-2013, sobretudo por conta do advento do Bolsa Família e do aumento real do salário mínimo.


Entretanto, a partir da crise de 2014, cujo desdobramento orçamentário foi a austeridade - inclusive continuada pelo governo Temer -, iniciou-se um ciclo macabro de volta da miséria e da fome.


Na esteira desta tragédia, elegeu-se em 2018 o atual presidente Bolsonaro. Ainda que o atual governo tenha sido afetado pelos efeitos econômicos da crise de COVID-19, antes mesmo do início da catástrofe mundial Bolsonaro já havia extinguido o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, por exemplo, fato emblemático para entendermos como se deu o avanço da fome no presente. Ainda, com o início da pandemia, que chegou em um país já esfacelado pela miséria crescente, houve queda ainda maior da renda e aumento substancial na inflação de alimentos, que superou o patamar de 15% nos 12 meses iniciais da pandemia em solo brasileiro. Todos os fatos acima citados explicam porque temos atualmente diversos brasileiros enfrentando a fome de perto.


Com efeito, diversas pesquisas feitas aventuraram-se em tentar mensurar o contingente populacional em situação de insegurança alimentar. O presente artigo foi construído então com base em 3 diferentes pesquisas, quais sejam: da Rede PENSSAN, que estimou 116 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar; do Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça, que apontou 125 milhões de brasileiros em situação de insegurança alimentar; e a Pesquisa DataFolha, que mostra que mais de 50 milhões de pessoas estão sem comida.


Essas três diferentes fontes demonstram que o avanço da fome no país é real e letal. As três chegam a resultados diferentes pois mensuram e coletam dados de maneira ligeiramente diferentes. Contudo, todas elas deixam claro o seguinte resultado: a fome avançou como nunca antes nos mais de 17 anos desde o início do bolsa família. Salienta-se que ainda que a fome, a desigualdade e a pobreza avançassem já antes da pandemia - como demonstra recente pesquisa do IBGE, cujo resultado demonstrou que o Brasil voltou para o mapa da fome já em 2018 -, elas tiveram um agravamento importante por conta da incapacidade do governo de Jair Bolsonaro em enfrentar adequadamente a pandemia.


Por exemplo, entre 2019 e 2020 a cidade de Porto Alegre apresentou um aumento de 38,73% no número de pessoas morando na rua. Isso demonstra o problema que enfrentaremos em decorrência da crise econômica atual, fruto também da má condução do enfrentamento à pandemia. Já são 14,5 milhões de famílias na extrema pobreza em todo o país, isto é, famílias que não possuem renda suficiente para sua própria alimentação diária.


Os dados aqui coletados (detalhados abaixo) demonstram que a pandemia da COVID-19 arrastou as pessoas para a fome, visto que não houve política federal centralizada de enfrentamento à doença durante praticamente todo período de vigência do surto no país. Mais que isso, o governo apostou na falsa dicotomia entre economia e saúde, quando, na verdade, a dicotomia é entre a doença e a saúde, sendo, portanto, economia e saúde pautas fundamentalmente complementares para enfrentar o vírus, dado que só há economia possível com pessoas saudáveis e aptas para trabalhar.


Pesquisa da rede PENSSAN estimou que, em 2020, havia mais de 115 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar - isso representa mais de 55% da população total brasileira. Tal pesquisa foi realizada em mais de 2 mil domicílios, nas 5 regiões do país, em áreas urbanas e rurais. Ainda segundo a pesquisa, em 2018 o número de pessoas em situação de insegurança alimentar era de 36,7%, ou seja, em 2 anos passamos de 75 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar para 115 milhões - 41 milhões a mais em apenas 2 anos, o que demonstra a incapacidade do país em lidar com a pandemia, mas não só.


Ao detalharmos esse contingente de 55% da população em situação de insegurança alimentar, constata-se que 37% não contavam com alimentos em quantidade suficiente (insegurança alimentar moderada ou grave) e 16% estavam passando fome (insegurança alimentar grave).


Outra pesquisa neste âmbito foi realizada pelo Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça, cujos resultados são mais alarmantes, pois demonstram que temos um contingente de mais de 125 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar, isto é, que não possuem quantidade nem qualidade ideal nos alimentos ingeridos desde o início da pandemia. Essa pesquisa detalhou que a imensa maioria de necessitados (cerca de 88%) são beneficiários do bolsa família, dentre os quais 35% passam fome.



Constatou-se também que casas com crianças de até 4 anos apresentam índices de insegurança alimentar ainda mais críticos do que a média nacional, dado que quase 70% desses domicílios vivem em insegurança alimentar, sendo que 20% deles passam fome. Há outros três dados relevantes levantados pela pesquisa. Um deles é o fato de, ainda que o consumo de alimentos tenha se tornado menor por uma grande quantidade de pessoas, 60% dos entrevistados afirmaram que ou mantiveram iguais, ou aumentaram o consumo de alimentos industrializados, fato que demonstra não só diminuição quantitativa, mas também qualitativa na alimentação dos brasileiros.


Outro ponto de extrema relevância apontado por essa pesquisa foi o fato de a fome estar presente em 25,5% das cases chefiadas por mulheres, enquanto para domicílios chefiados por homens o número 13,3%; quando a pessoa é negra a insegurança alimentar é de 67,5%. Além do mais, pode-se dizer que a pesquisa aferiu a existência de uma regionalização da fome, dado que no Nordeste, 73,1% da população estava nessa categoria, no Norte a taxa é de 67,7%; já no Sul, 51,6% dos domicílios estavam em insegurança alimentar, e 53,5% dos localizados no Sudeste.


A elevação da insegurança alimentar segue curso de aumento. Mais grave ainda: a insegurança alimentar grave, que vinha caindo no período de 2004-2013, voltou a crescer e atingiu patamar sem precedentes.



Como terceira fonte do artigo, temos a pesquisa DataFolha. Segundo dados desta pesquisa, faltou comida para 1 a cada 4 brasileiros nos últimos meses, sendo que a maioria destes que passam fome são mulheres e negros. Ainda segundo a pesquisa, 88% das pessoas entrevistadas acreditam que o problema da fome se agravou no país durante o decurso da pandemia. Tal situação percebida e sentida por muitos brasileiros se faz presente sobretudo para mulheres, negros e pessoas com baixa escolaridade, dado que 40% das pessos que tem ensino fundamental completo estão sem comida.


Outro fator muito atrelado ao avanço foi o desemprego, pois em domicílios onde somente um adulto trabalha há 29% de comida suficiente; já onde nenhum adulto trabalha, o número sobe para 35% de insuficiência alimentar.


Além disso, a pesquisa DataFolha constatou que, para as pessoas que recebem auxílio emergencial, a fome é uma tônica, dado que 41% das pessoas que compõem o grupo que receberam o auxílio disseram ter faltado comida na mesa. Outro dado chocante constatado pela pesquisa é o fato de famílias com crianças de até 6 anos de idade tiveram maior falta de alimentos (35% delas) em relação a famílias sem crianças.



Conclusão


Ainda que a fome e a pobreza tenham apresentado aumento entre 2014-2019, parece ter ocorrido um grande aumento por conta da péssima condução da pandemia por parte do governo de Jair Bolsonaro. Ainda que tenha sido aprovado o auxílio emergencial - a despeito do presidente brasileiro, cujo desejo era pagar apenas 200 reais -, a crise foi tão grande que não se conseguiu conter o grande avanço da fome. Não há como superar a atual situação sem avançar fortemente em políticas públicas de assistência aos mais vulneráveis.